quinta-feira, 13 de maio de 2010

A pastoral no mundo digital


12/05/2010 | Jaime Carlos Patias *

"O sacerdote e a pastoral no mundo digital: os novos meios a serviço da Palavra" é o tema escolhido por Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2010. A missão da Igreja é comunicar a Palavra, ad intra e ad extra (dentro e fora) na proximidade de Deus com as pessoas e culturas, das pessoas com Deus e das pessoas entre si. A Evangelização é parte constitutiva da missão da Igreja, enviada por Cristo ao mundo para anunciar a Boa Notícia a toda criatura (cf. Mc 16, 15). A mensagem pela 44ª Jornada Mundial das Comunicações Sociais traz a data de 24 de janeiro, Festa de São Francisco de Sales, e convida de modo particular, os sacerdotes, no Ano Sacerdotal e depois da celebração da 12ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, a "considerar os novos meios como um poderoso recurso para seu ministério a serviço da Palavra e quer dirigir uma palavra de alento para enfrentar os desafios derivados da nova cultura digital".
O papel principal do sacerdote é anunciar a Palavra de Deus que se fez carne, história, tornando-se, de tal modo, sinal desta comunhão que Deus realiza com a humanidade. A eficácia deste ministério requer, contudo, que o sacerdote viva uma relação íntima com Deus, radicalizando-se num amor profundo e numa consciência viva das Sagradas Escrituras, "testemunho" em forma escrita da Palavra divina. Conforme percebemos, o centro e o conteúdo da comunicação não é o sacerdote ou o agente de pastoral, mas a Palavra encarnada, Jesus Cristo. Isso serve como um alerta para os adeptos do marketing católico, que buscam a todo o custo construir a imagem do padre "garoto propaganda", de produtos da fé ofuscando o essencial: o Evangelho.

Tecnologias indispensáveis

As novas tecnologias do mundo moderno já se tornaram indispensáveis para a Evangelização. Ao longo da história, mais do que dar um juízo sobre os meios de comunicação social, a Igreja vem procurando utilizá-los a seu favor, no serviço de evangelização e formação. De fato, na Missão, não podemos ficar alheios às modernas técnicas e aos meios, mas, devemos aprender a utilizá-los com efiência e responsabilidade.
O Concílio Vaticano II, no Decreto Ad Gentes já havia considerado os meios de comunicação social indispensáveis na Evangelização. "Para que todos os fiéis conheçam perfeitamente a situação atual da Igreja no mundo e ouçam a voz das multidões gritando: ‘Ajuda-nos', forneçam-se notícias missionárias, também mediante os meios modernos de comunicação social, de forma que, sentindo sua atividade missionária, abram o coração à tão imensa e profunda necessidade dos homens e a elas possam socorrer" (AG 36).
Diante do mandato de anunciar, na mensagem deste ano, Bento XVI retoma a temática da Encíclica Redemptoris Missio de João Paulo II (1990), resgatando a preocupação do grande comunicador Paulo de Tarso que anunciou não a si mesmo, mas o verdadeiro conteúdo da Escritura, que diz: "Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido". (...) Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Mas como hão de invocar Aquele em quem não acreditam? E como hão de acreditar n'Aquele de quem não ouviram falar? E como hão de ouvir falar, se não houver quem lhes pregue? E como hão de pregar, se não forem enviados?" (Rm 10, 11.13-15).
O papa convocou toda a Igreja a olhar a rede mundial de computadores com entusiasmo e audácia, exortando os sacerdotes a navegar na internet e levar a Palavra de Deus ao grande "continente digital": "Ora, aos presbíteros é pedida a capacidade de estarem presentes no mundo digital em constante fidelidade à mensagem evangélica, para desempenharem o próprio papel de animadores de comunidades, que hoje se exprime cada vez mais frequentemente através das muitas "vozes" que surgem do mundo digital, e anunciar o Evangelho recorrendo não só aos meios tradicionais, mas também ao contributo da nova geração de audiovisuais (fotografia, vídeo, animações, blogs, páginas da internet) que representam ocasiões inéditas de diálogo e meios úteis inclusive para a evangelização e a catequese".
Ressalvando os limites das novas mídias, na mensagem Bento XVI dá o seu "juízo positivo" do mundo digital. O fluxo comunicativo da rede pode alcançar os não-cristãos e contribuir para a Missão Ad Gentes. "Do mesmo modo que o profeta Isaías chegou a imaginar uma casa de oração para todos os povos (cf. Is 56, 7), não se poderá porventura prever que a internet possa dar espaço - como o "pátio dos gentios" do Templo de Jerusalém - também àqueles para quem Deus é ainda um desconhecido?", questiona o papa.

Responsabilidade do clero

A mensagem convida os sacerdotes a assumirem a responsabilidade diante do seu ministério quando pergunta: "quem melhor do que um homem de Deus poderá desenvolver e pôr em prática, mediante as próprias competências no âmbito dos novos meios digitais, uma pastoral que torne Deus vivo e atual na realidade de hoje e apresente a sabedoria religiosa do passado como riqueza donde haurir para se viver dignamente o tempo presente e construir adequadamente o futuro?" Contudo, os sacerdotes não precisam ser protagonistas na parte técnica, mas, animar e trabalhar em comunhão com profissionais leigos comprometidos. "No impacto com o mundo digital, mais do que a mão do operador dos meios, o presbítero deve fazer transparecer o seu coração de consagrado, para dar uma alma não só ao seu serviço pastoral, mas também ao fluxo comunicativo ininterrupto da rede".
Nesse sentido acreditamos que um dos maiores desafios para o clero e os seminaristas nas casas de formação é, diante do amplo acesso à internet, utilizá-la em todo o seu potencial, evitando que esse meio moderno se torne apenas um instrumento de relacionamento e diversão, sem uma verdadeira e eficaz serventia à evangelização. Conforme afirma o comunicado, "a tarefa de quem opera, como consagrado, nas mídias é aplanar a estrada para novos encontros, assegurando sempre a qualidade do contato humano e a atenção às pessoas e às suas verdadeiras necessidades espirituais; oferecendo, a quem vive nesta nossa era ‘digital', os sinais necessários para reconhecerem o Senhor; dando-lhes a oportunidade de se educarem para a expectativa e a esperança, abeirando-se da Palavra de Deus que salva e favorece o desenvolvimento humano integral. A Palavra poderá assim fazer-se ao largo no meio das numerosas encruzilhadas criadas pelo denso emaranhado das auto-estradas que sulcam o ciberespaço e afirmar o direito de cidadania de Deus em todas as épocas, a fim de que, através das novas formas de comunicação, Ele possa passar pelas ruas das cidades e deter-se no limiar das casas e dos corações, fazendo ouvir de novo a sua voz: Eu estou à porta e chamo. Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo (Ap 3, 20)".
Numa perspectiva universal, o Sumo Pontífice ressalta ainda que "os novos meios oferecem aos presbíteros perspectivas sempre novas e, pastoralmente, ilimitadas, que os solicitam a valorizar a dimensão universal da Igreja para uma comunhão ampla e concreta; a ser no mundo de hoje testemunhas da vida sempre nova, gerada pela escuta do Evangelho de Jesus, o Filho eterno que veio ao nosso meio para nos salvar". Por fim a mensagem também recorda que "a fecundidade do ministério sacerdotal deriva primariamente de Cristo encontrado e escutado na oração, anunciado com a pregação e o testemunho da vida, conhecido, amado e celebrado nos sacramentos, sobretudo, da Santíssima Eucaristia e da Reconciliação".
Em suma, a reflexão do papa reforça um sábio desejo da Igreja com relação ao uso dos meios de comunicação, que na prática ainda é muito tímido, principalmente pela falta de investimento de recursos e profissionais qualificados para atuar no interior das comunidades e instituições.

Novas Tecnologias

Em 2009, o Dia Mundial das Comunicações Sociais foi dedicado ao tema "Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade".
Em sua mensagem para aquela ocasião, o papa convidava "todos os que empregam as novas tecnologias da comunicação, em especial os jovens, a utilizá-las de uma maneira positiva e a compreender o grande potencial desses meios para construir laços de amizade e solidariedade que possam contribuir para um mundo melhor".
O Dia Mundial das Comunicações Sociais, a única celebração mundial estabelecida pelo Concílio Vaticano II (Inter Mirifica, 1963), está marcada na maioria dos países, por indicação do episcopado mundial, para o domingo anterior a Pentecostes, na festa da Ascensão do Senhor, este ano 16 de maio. Em geral, o anúncio do tema é divulgado no dia 29 de setembro, festa dos Arcanjos São Miguel, São Rafael e São Gabriel, o qual foi designado patrono dos radialistas. A Mensagem do Santo Padre para o Dia Mundial das Comunicações Sociais é publicada tradicionalmente em coincidência com a memória de São Francisco de Sales, patrono dos jornalistas (24 de janeiro), para permitir que as Conferências Episcopais, a Pastoral da Comunicação e as organizações que se ocupam de comunicação social tenham tempo suficiente para preparar subsídios audiovisuais e outros materiais destinados aos estudos e celebrações nacionais e locais.
* Jaime Carlos Patias, imc, é mestre em comunicação e diretor da revista Missões.
Publicado na edição Nº04 - Maio 2010 - Revista Missões.

Fonte: Revista Missões

Jornada Sacerdotal antecede abertura do XVI Congresso Eucarístico

13/05/2010 | Jaime C. Patias, em Brasília
Hoje, 13 de maio, a partir das 8 horas, acontece no Centro de Convenções Ulysses Guimarães uma Jornada Sacerdotal, antes da abertura oficial do XVI Congresso Eucarístico Nacional - CEN, que terá lugar às 19 horas com missa na Esplanada dos Ministérios. A Jornada Sacerdotal é um dia dedicado aos presbíteros de todo o Brasil com a presença do enviado do Papa Bento XVI e prefeito da Congregação para o Clero, Cardeal Cláudio Hummes. Em sua palestra, dom Cláudio abordará o tema: "O ano sacerdotal - Fidelidade de Cristo, Fidelidade do Sacerdote".
Destaques também para a presença do núncio apostólico no Brasil, dom Lorenzo Baldisseri, o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz e para o bispo de Arns, na França, dom Guy Marie Bagnard.
Jaime C. PatiasAltar na Esplanada dos Ministérios.No início do ano, Dom Cláudio enviou uma carta a todos os sacerdotes do país convidando-os a participarem desta jornada de oração e reflexão. "No meu atual ofício, aprendo cada dia de novo e mais profundamente a admirar e venerar os sacerdotes e cada sacerdote do mundo inteiro, mas, é claro, particularmente os padres do Brasil", disse Dom Cláudio, na carta.
Fazem parte do programa: Celebrações Eucarísticas, Adoração do Santíssimo Sacramento, concertos, feiras e atividades culturais católicas. Nos dia 14 e 15 de abril, o Centro de Congressos Ulysses Guimarães hospedará Simpósios de Teologia e Bioética. A partir da temática do CEN, os delegados dos simpósios refletirão sobre questões relevantes e atuais do cenário político-social brasileiro. Durante os simpósios, serão lançados documento com diretrizes sobre questões relacionadas à vida, desde a concepção até a morte e um site pró-vida.
Na Esplanada dos Ministérios o palco que hospedará o altar mede 50 metros de largura e 23 metros de altura. Com o tema "Eucaristia, pão da unidade dos discípulos missionários" e lema "Fica conosco, Senhor!" (cf. Lc 24,29), o CEN 2010 acontece na Arquidiocese de Brasília que nasceu em 1960, mesmo ano em que a capital brasileira foi construída. Ambas celebram em 2010 seu Jubileu de Ouro.

Fonte: Revista Missões

Assembleia aprova primeiros documentos



Carta dos Bispos aos Presbíteros e Declaração sobre o Momento Político Nacional são os dois primeiros documentos aprovados pela 48ª Assembleia Geral da CNBB, que termina amanhã, em Brasília. O primeiro documento teve 230 ‘sim' de 249 votantes; já o segundo foi aprovado com 253 ‘sim' de um total de 254 votos.
12/05/2010 | CNBB

Carta aos padres

Na carta aos padres, os bispos enaltecem o trabalho dos padres. "Conhecemos de perto seus sacrifícios que, às vezes, alcançam o heroísmo, na busca cotidiana de fidelidade à missão evangelizadora", diz a carta.
Numa referência aos abusos sexuais contra menores envolvendo padres, os bispos dizem que estes "comportamentos abusivos" de alguns presbíteros atingiram "a credibilidade dos sacerdotes e a grandeza do dom que nos foi confiado". "Amargura e sofrimento, confusão e mesmo indignação, invadiram o íntimo de muitos cristãos e das pessoas que amam a justiça, a verdade e a coerência de vida".
Os bispos reafirmam sua confiança nos padres. "Queremos reafirmar nossa satisfação e confiança pela multidão de presbíteros que, identificados com Cristo, compartilham as alegrais e as esperanças, as tristezas e as angústias às comunidades que lhes são confiadas".

Momento Político

Composta por 11 parágrafos, a Declaração sobre o Momento Político Nacional começa recordando fatos e eventos que marcam o cenário eclesial e nacional como a assembleia da CNBB, o jubileu de ouro da capital federal e da arquidiocese de Brasília, o Congresso Eucarístico Nacional e o da realidade política do país, como sua política internacional, o PNDH-3 e a votação do Projeto Ficha Limpa.
Na Declaração, a CNBB revela sua preocupação com "os grandes projetos, sobretudo na Amazônia" que não levam "devidamente em conta suas consequências sociais e ambientais".
Os bispos afirmam que permanece o desafio "de uma autêntica reforma agrária" e destacam a urgência de uma "profunda reforma política, iluminada por critérios éticos, com a participação das diversas instâncias da sociedade civil organizada, fortalecendo a Democracia direta com a indispensável regulamentação do Artigo 14 da Constituição Federal, relativo a plebiscito, referendo e iniciativa popular de lei".
Para os bispos, a campanha eleitoral deste ano é oportunidade para "empenho de todos na reflexão sobre o que precisa ser levado adiante com responsabilidade e o que deve ser modificado, em vista de um Projeto nacional com participação popular".
Ao final, os religiosos convocam o povo a expressar sua cidadania nas próximas eleições através do "voto ético, esclarecido e consciente" a fim de que sejam superados "possíveis desencantos com a política".

Confira abaixo as duas cartas:


Fonte: www.cnbb.org.br

Solidariedade anima Campanha Missionária


24/03/2010 | Jaime C. Patias *

"Ouvi o Clamor do Meu Povo" (Ex. 3,7b)
Reunida no dia 22 de março, na sede das Pontifícias Obras Missionárias - POM, em Brasília, DF, a Comissão de articulação da Campanha Missionária intensificou os preparativos para popularizar a iniciativa em todo o Brasil. Os trabalhos estão sendo coordenados pelo diretor das POM, padre Daniel Lagni, em colaboração com representantes das forças missionárias da Igreja no Brasil. Na ocasião, o padre Cireneu Kuhn, diretor da Verbo Filmes, apresentou o vídeo do quinto tema da Novena que irá compor um DVD, trabalho considerado uma novidade na Campanha deste ano.
Serão editados 120 mil exemplares do livrinho com a Novena e produzidos cerca de 12 mil cópias do DVD para serem distribuídos em todas as comunidades católicas do país. Segundo padre Sávio, secretário da Pontifícia União Missionária, "a Campanha não pode perder de vista o principal objetivo de mostrar a dimensão universal da Missão, levando os cristãos a olharem para além de suas fronteiras". Nesse sentido, ao apresentar o tema "Missão e Partilha", a Campanha destaca a solidariedade que os cristãos devem ter com a missão Ad Gentes (aos povos). A Semana Missionária para a Amazônia, que acontece na última semana de outubro, também foi inserida no apelo da Campanha Missionária.
O Dia Mundial das Missões é celebrado desde 1926 no penúltimo domingo do mês de outubro, Mês das Missões, quando é feita uma coleta em todas as comunidades. O montante arrecadado é destinado ao Fundo Mundial de Solidariedade Missionária para financiar projetos de evangelização e promoção humana em todo mundo.
Segundo as POM, nos últimos dez anos, as ofertas do Dia Mundial das Missões, no Brasil, passaram de R$ 1.753.861,68 (em 1999) para cerca de R$ 6.000.000,00 em 2009. Apesar disso, a contribuição não chega à cifra de cinco centavos por católico residente no país. As ofertas mundiais em 2008 alcançaram a cifra de US$ 163.007.478,80.
Em breve será lançado o cartaz oficial da Campanha 2010 que, em sintonia com a Campanha da Fraternidade, tem como tema "Missão e Partilha" e lema "Ouvi o clamor do meu Povo" (Ex. 3,7b). Os subsídios da Campanha serão enviados a todas as dioceses do Brasil e, ao mesmo tempo, disponibilizados para download no site das POM (WWW.pom.org.br).
Informações: Imprensa Missionária
Jaime Carlos Patias, imc - Tel.: (11) - 2256 8820
Fonte: Imprensa Missionária

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Notícia do jornal Diário do Pará
Em toda parte da cidade, é possível encontrar pessoas adeptas das mais diversas religiões, como o espiritismo e o protestantismo. Também estão muito presentes na capital do Pará as religiões afro-brasileiras trazidas da África pelos escravos. Há ainda manifestações de muitas outras religiões, vindas dos mais diversos lugares do mundo, como o islamismo, o judaísmo, o neopaganismo ou o mormonismo. 
Mas, como será que os integrantes das diversas religiões encaram as diferenças? Como fazer para que a crença de cada um seja respeitada por todos? 
O chanceler da Arquidiocese de Belém, padre Ronaldo Menezes, define a diversidade religiosa que existe na cidade como “saudável”. Segundo ele, embora haja diferentes modos de viver a religião, existe um respeito muito grande entre as pessoas de religiões distintas. “O importante não é o que nos diferencia, e sim o que nos une. Existe espaço para todas as religiões, o importante é ter fé e acreditar”. 
A freira Fátima Corpes convive com a diversidade dentro de sua família. Enquanto optou pelo convento, uma de suas irmãs se tornou pastora de uma igreja evangélica. “Eu acho que os diferentes pontos de vista religiosos são importantes, porque, quando há tolerância, nós podemos ver a maneira diferente que cada um tem de se relacionar com Deus”. 


LIBERDADE
Na opinião do presidente da União religiosa dos cultos umbandistas e afro-brasileiros do Estado do Pará, coronel Itaci Domingues, as religiões passaram a ter uma dinâmica maior em todo o país depois da Constituição Federal de 1988, que decretou a liberdade religiosa em todo o Brasil. “Antes disso, havia o temor de exercer suas religiões, não havia respeito e convivência”.
Avaliando a situação atual, o coronel diz ter acontecido um avanço. “Deixamos de ter medo e receio da nossa prática. Temos uma lei que é clara e nos protege. Além disso, o Papa João Paulo II abriu a porta do vaticano para outras religiões. Hoje, posso dizer que houve uma aproximação muito grande aqui em Belém, principalmente da religião católica com a religião afro-brasileira. Esperamos que isso continue e se estenda a outras religiões”.
A pastora Cibele Kuss, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, explica que já existe em Belém varias inicitativas que promovem o diálogo entre os religiosos. Ela coordena um comitê inter-religioso formado por 24 entidades religiosas e dez religiões distintas. “Nós unimos todas as religiões com o objetivo de promover o bem para a humanidade”. Cibele diz que durante os encontros, os religiosos aprendem a conviver com as diferenças. 
“Cada um age de acordo com aquilo que acredita. Trabalhamos no combate à intolerância religiosa, atitudes de preconceito e discriminação contra determinadas religiões. Também precisamos ajudar muito mais nas relações, para aproximar, reconciliar, para ajudar as pessoas a se entenderem melhor”. 
A pluralidade das religiões em Belém fez com que muitos jovens escolhessem a área da religiosidade como profissão. Com apenas 20 anos de idade, Thayana Machado faz um curso preparatório para se tornar pastora evangélica. Batizada na igreja católica, Thayana pedia para ir à missa aos domingos com sua babá, já que seus pais não tinham tempo de levá-la à igreja. Aos oito anos, passou a frequentar a igreja evangélica e decidiu que iria mudar de religião. 
Aos 14 anos, a garota se tornou líder de uma célula (grupo pequeno de pessoas que se reúnem durante uma hora do dia para celebrar um miniculto). Hoje, Thayana participa de um curso de teologia de pastores na igreja, e tem como uma das metas de sua vida se tornar pastora evangélica. 

Há exatamente cem anos (1910) acontecia, na cidade escocesa de Edimburgo, a Conferência Missionária Mundial, um encontro que tinha como objetivo propor a unidade dos cristãos para a missão. Para povos não cristianizados, era difícil compreender divergências doutrinais entre pessoas que seguiam um mesmo credo religioso, sob a égide de um só Cristo. Daí a proposta de criar uma unidade dialogal entre comunidades cristãs de diferentes tradições teológicas.
  
O princípio que regia essa ideia, em última análise, era simples: muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa (Marcos 9:40). A partir de então, houve um esforço coletivo das igrejas presentes nesta conferência de exaltar o diálogo e minimizar o confronto, pois todos levavam a mesma cruz, o mesmo amor e, consequentemente, compartilhavam um só objetivo: anunciar as boas novas do Salvador (Mateus 10:7).

Nesse mesmo clima de conciliação, fraternidade e ecumenismo, igrejas cristãs de todo o mundo são chamadas, hoje, a testemunhar o Cristo na unidade “para que o mundo creia” (João 17:21). Dessa forma, diferenças são eliminadas e objetivos fortalecidos, de modo que a união consegue permanecer mesmo na diversidade, enriquecendo o testemunho cristão.

Neste ano, 2010, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC) será realizada entre os dias 16 a 23 de maio e terá como lema “Vocês são testemunhas dessas coisas” (Lucas 24:48). Vale lembrar que as igrejas escocesas também celebram, concomitantemente com a SOUC, o centésimo aniversário da Conferência de Edimburgo, e o tema proposto é semelhante: “Testemunhar Cristo Hoje”.

Para o secretário geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Rev. Luiz Alberto Barbosa, a missão das igrejas neste século XXI ganha um novo enfoque. “Há cem anos, o objetivo era aproximar mensagens no intuito de não confundir povos que ainda não conheciam o evangelho. Hoje, porém, nosso maior desafio é incutir a cultura do ecumenismo nas igrejas, criando uma linguagem comum para nós mesmos, povo cristão”, disse.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Fé e economia - O tabu da teologia Por: CHED MYERS, Budista norte-americano

Fé e economia - O tabu da teologia 
Por: CHED MYERS, Budista norte-americano

A teologia também tem de tratar de economia, mas numa visão profundamente alternativa: a da Bíblia. Maná, sábado, jubileu, ensinamentos e vida de Jesus lidos, partindo do coração do atual sistema econômico global, os EUA.
Não é o sexo. Nem sequer a política. O verdadeiro tabu da teologia é a economia. «Gastamos o nosso dinheiro como se não conhecêssemos o Evangelho; e lemos o Evangelho como se não tivéssemos dinheiro», afirma o jesuíta John Haughey, sublinhando um sentimento difuso entre os teólogos e na Igreja dos Estados Unidos.Contudo, hoje, nenhum outro aspecto influencia tanto a vida individual e coletiva como o econômico, e poucos outros assuntos são rebuscados de forma tão incisiva nas Escrituras como os econômicos.
O principal desafio que hoje a família humana tem de enfrentar é a iníqua distribuição de riqueza e poder. Um modelo econômico que transfere a riqueza dos cada vez mais pobres para os cada vez mais ricos. As políticas neoliberais de reajustamento estrutural não só tornam mais dura esta polarização como cavam um fosso mais profundo de alienação física e social.
Quando vemos que o vendedor de fruta tem de fechar a loja, ou que empresas familiares não conseguem sobreviver, no Norte, também estamos a ser testemunhas daquela destruição que, como uma epidemia, tem vindo a devastar as culturas locais, as instituições e a natureza no Sul.
Qualquer teologia que se recuse a enfrentar esta realidade torna-se fútil. E cruel. Nós, cristãos, temos o dever de discutir economia, de falar dela confrontando-a com a economia do Evangelho. «As igrejas talvez se tenham tornado no último refúgio da nossa cultura onde se pode falar abertamente de valores sem ser de mercado», afirma Cornel Wesa, professor de estudos afro-americanos e de filosofia da religião na Universidade de Harvard. Aqueles que tentam desafiar o capitalismo pós-moderno e o seu mercado auto-refencial estão já a lutar por uma linguagem e uma prática alternativas. Num contexto de aparente descrédito do socialismo, este vazio ideológico proporciona à Igreja uma oportunidade única: redescobrir uma visão totalmente diferente da praxe social e econômica. Esta visão funda-se no âmago mais profundo das Escrituras.
A Bíblia não aceita a injustiça como uma condição permanente. Pelo contrário, são dadas ao povo de Deus as instruções para desmantelar os principais códigos e estruturas de uma riqueza e de um poder estratificados, para que todos deles possam participar. Esta concepção da sociedade e da economia é expressa em diversas passagens: no Êxodo (cap. 16), nas leis do Levítico (25), nas exortações do Deuteronômio (15), nas profecias de Isaías (5), nas parábolas de Jesus (Mt 25), nos veementes apelos dos apóstolos (2 Cor. 8-9).
Não atraiçoar o sábado
«Sábado» deriva do hebraico shabat, que significa repousar, ou deixar de trabalhar. Encontra-se na Bíblia no fim da narração da criação (Gênesis 2) e assume-se em todos os livros como o fundamento da visão social e econômica da Bíblia. Os homens são convidados a imitar a Deus na prática do sábado: recorde-se a típica narração de fome e de pão do Êxodo (o maná do cap. 16), encaixada num contexto de histórias de sede e de água.
Os antigos israelitas, tal como os modernos norte-americanos, não conseguiam imaginar um sistema económico diferente do dominante, na altura o egípcio: um sistema complexo, militar, industrial, tecnológico, que os havia tornado escravos. Os israelitas foram libertos da escravidão, mas encontravam-se a viver a dura realidade da sobrevivência fora do sistema imperial, de encontrar que comer.
O maná não é apenas um milagre que enche o estômago. É a alternativa de Deus à economia do Egito: o pão que cai do céu é símbolo da sementeira e da colheita como dons de Deus. O primeiro ensinamento ao povo liberto diz respeito a uma forma de produção econômica!
Moisés dá três indicações concretas para entrar nesta economia alternativa.   
1. Cada família deve recolher só o necessário para o seu consumo. Na economia de Deus não há lugar para o demasiado ou para o pouco de mais: isto contrasta radicalmente com o capitalismo moderno em relação à riqueza e à miséria. Esta teologia do «quanto basta» é sublinhada por uma outra versão do trecho do maná, provavelmente posterior (Números 11), onde o povo, que se lamentava por só ter maná e não carne, é castigado com carne «de mais».
2. O maná não pode ser acumulado nem armazenado. No Egito, riqueza e poder definiam-se pela capacidade de poder armazenar coisas supérfluas. Não é por acaso que o trabalho forçado do povo israelita consistia na construção de cidades-armazéns para o faraó (Êxodo 1), onde se recolhiam os despojos e as taxas das populações vencidas: esta acumulação prefigura já o capitalismo moderno. A Bíblia entende que as civilizações dominantes exercem uma força convergente e absorvem trabalho, recursos, riquezas e uma cada vez maior concentração de poder idolátrico (o protótipo deste processo é a história da Torre de Babel, Gênesis 11). Por isso, Israel é convidado a fazer circular a riqueza redistribuindo-a e não a concentrá-la acumulando-a.
3. O mandamento de observância do sábado foi dado ainda antes dos dez mandamentos no monte Sinai. Se alguém não observar o sábado morrerá (Êxodo 31). O sábado é o início e o fim da lei.
Por isso, nós tornamos vulgar (e até profanamos) o sábado se o considerarmos simplesmente como um dia em que os hebreus faziam o estritamente necessário. A prescrição de um repouso periódico para a terra e para os homens que trabalham significa destruir a tentativa (a tentação) do homem em controlar a natureza e de maximizar a produção.
A história do maná mostra que o homem depende de uma economia de graça divina. Observar o sábado significa lembrar-se todas as semanas de dois princípios básicos da economia: o objetivo do «quanto basta» para cada um, e a proibição da acumulação de riquezas. Esta visão contrasta totalmente com a economia que hoje conhecemos. A nossa incredulidade é mesmo antecipada com um certo humorismo pela própria Bíblia: o termo maná deriva da expressão de incredulidade «o que é isto?».
O código de justiça social do sábado alarga-se a um ciclo de sete anos (Êxodo 23) em que também os pobres e os animais selvagens poderão livremente comer; o livro do Levítico define o jubileu como o ano do sábado por excelência (celebra-se após o 49º ano, ou seja, cada sete ciclos de sete anos): a sua finalidade é desmantelar as estruturas da desigualdade social e econômica pela remissão das dívidas aos membros da comunidade; a redistribuição da terra aos primitivos proprietários; a libertação dos escravos. A razão profunda deste reequilíbrio unilateral da comunidade baseia-se na certeza de Israel de que a terra pertence a Deus e que o povo do êxodo, liberto da escravidão do Egito, jamais haveria de regressar a um sistema de nova escravatura.
O autor do Deuteronómio (15) quis ir tão além que até incluiu o perdão das dívidas no ano do sábado. Era uma barreira colocada à inevitável tendência da sociedade humana em concentrar riqueza e poder nas mãos de poucos, criando uma hierarquia de classes. Nas sociedades agrícolas, como o Israel bíblico (ou como parte do Sul dos nossos dias), o ciclo da pobreza inicia-se quando uma família cai na espiral da dívida, que se agravam quando a família tem de vender a terra para pagar os juros, e fecham-se quando as pessoas vendem a única coisa que lhe resta: a sua força de trabalho. Tornam-se então escravos. Na Antiguidade não havia bancos e por isso eram os grandes proprietários de terras que tinham dinheiro para emprestar e que, quando não podiam pagar, os tornavam escravos nas suas propriedades.
Prisioneiros da ortodoxia do mercado
A Igreja tem dificuldade em escutar esta boa nova. A nossa teologia esteve por muito tempo prisioneira da ortodoxia do mercado do capitalismo moderno. Foi assim que os nossos medos nos convenceram de que o jubileu bíblico é, na melhor das hipóteses, uma utopia – na pior, ideologia comunista.
Isto conduz-nos, uma vez mais, à Bíblia: não há dúvida de que o mandamento de observância do sábado era regularmente esquecido por aqueles israelitas que pretendiam consolidar a sua posição social e as suas riquezas.
A traição ao sábado por parte dos israelitas transforma-se numa censura constantemente levantada pelos profetas. Isaías acusa os chefes de terem roubado os pobres (Isaías 3, 14-15); Amós acusa os comerciantes de considerarem o sábado um obstáculo aos seus negócios e de tratarem os pobres como um grupo a explorar em vez de salvaguardarem os seus direitos às alimpas (Amós 8, 5-6), Oseias lamenta que a fidelidade ao comércio internacional tenha tomado o lugar da aliança com a economia divina da graça (Oseias 2, 7). Mas o trecho mais explícito é o que atribui a destruição de Jerusalém à incapacidade do povo em observar o sábado (2 Crônicas 36, 20-21; Levítico 26, 34-35).
Também (e sobretudo) Jesus
A economia do sábado caracteriza também o núcleo do ensinamento de Jesus e torna-se motivo de conflito entre Jesus e a ordem instituída dos judeus, conflito que lhe custará a morte.
Não é por acaso que, entre as inúmeras possibilidades que a Bíblia lhe apresenta, Jesus opta, para definir a sua missão (Lc 4), pelo capítulo 61 de Isaías, o profeta onde a economia do sábado é plenamente reabilitada.
Na oração do pai-nosso (Lc 11) e em todos os Evangelhos o verbo empregue para exprimir o perdão dos pecados é o mesmo utilizado para cancelar as dívidas.
Ao contrário da sociedade em que vivemos, que se recusa a ver as dimensões econômicas de comportamentos imorais ou criminosos, os Evangelhos não espiritualizam «o pecado» e não ignoram a realidade da dívida, apresentando os dois aspectos em profunda correlação.
A exortação de perdoar setenta vezes sete (talvez uma referência ao sistema jubilar do Levítico e a Génesis 4, 24) é seguida e explicada por uma peroração, política e econômica, sobre a responsabilidade de perdoar as dívidas (Mt 18). No capítulo segundo de Marcos, Jesus permite aos seus discípulos colherem espigas em dia de sábado para matarem a fome sem olharem às convenções sociais. E eis a estocada: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.» Não é uma afirmação de posse, menos ainda uma anulação da lei do sábado. Pelo contrário: afirma-se que o sábado faz parte da criação divina, e que a sua finalidade é a de nos tornar mais humanos, num mundo onde, pelo contrário, uma parte tão grande do pensamento e da prática social e econômica nos desumaniza.
Mas há mais: Jesus procura fundar comunidades entre grupos alienados social e economicamente. Chama Levi (Mateus) a segui-lo, e Levi abandona a sua atividade de cobrador de impostos. Porque é que este comportamento suscita tanta celeuma nas autoridades? A resposta encontramo-la no episódio de Zaqueu (Lc 19). Este rico credor também recebe Jesus, mas compreende imediatamente que, para o hospedar, tem de reparar uma grande injustiça econômica: «Dou aos pobres metade dos meus bens e se prejudiquei alguém restituo-lhe o quádruplo.» É este programa econômico «nivelador» que é recusado por quem determina oficialmente as dívidas. Ontem como hoje.
Levi e Zaqueu acolhem a libertação proposta por Jesus através da redistribuição dos bens. Um outro homem, rico, não consegue e recusa-a (Mc 10, 21). É interessante notar que na fórmula empregue pelos Evangelhos para indicar a opção de seguir Jesus («deixaram tudo e seguiram-no») é usado o verbo aphiemi, deixar, que é o mesmo utilizado para perdoar os pecados e as dívidas. Jesus espera que os seus discípulos adotem a sua economia fundada na graça. E promete-lhes que, se deixaram a casa, a família e os campos (ou seja, a economia agrícola do seu tempo, os locais de consumo, força de trabalho, produção), receberão cem vezes mais...
Nesta nova economia, que Jesus chama Reino, não haverá nem pobres nem ricos. Por isso, os ricos não podem lá entrar. Esta perspectiva é tão radicalmente diferente da nossa visão da economia que, então como hoje, os discípulos têm dificuldade em crer que ela é verdadeira (Mc 10, 26).